Ir. Maria Carmela Mattar

   

Escrevo genuflexa, em oração, algumas linhas a respeito da fundação e origem de nosso Colégio esperando poder render homenagem ao nosso querido povo desta grande terra – porta de ouro da promissão paranaense e no curso dos acontecimentos, na impossibilidade de citar nominalmente todos e todas as Famílias, sintam-se todos e todas lembradas e eternamente agradecidas e certamente orgulhosas por sua valiosa contribuição. No decorrer destas páginas não cito minha colaboração porque de tudo isso e com isso e por isso juntamente com outras colegas professoras escrevemos parte de   nossa vida... E como foi o princípio? De onde veio a ideia? Por quê? Onde? Quando? Como?

  De modo muito simples posso afirmar que antes de qualquer resposta a estas perguntas é muito interessante saber que, segundo dizia Monsenhor João Belchior, aqui “matava-se um homem e meio por dia”, era urgente uma Evangelização constante, plena, cheia de amor e de compaixão. Num ambiente assim difícil era necessário um Pastor corajoso, orante, fiel e como diz o Papa Francisco, um Pastor que carrega suas ovelhas e conhece o odor e a dor delas...

A Divina providência, nessa situação, enviou o Padre João Belchior com um dinamismo decorrente de sua profunda formação religiosa, de sua formidável cultura e de sua devoção mariana para “temperar” a situação. Detenho-me sobre o quadro apenas traçado e imagino como era Cambarà naquelas alturas. A Diocese de Jacarezinho era apenas desmembrada da Diocese de Botucatu e era uma das  maiores do Brasil abrangendo todo o Norte do Paranà! Por longos e difíceis 33 anos o Padre João, como carinhosamente o chamávamos, foi Pároco de Cambarà enfrentando com coragem e determinaçao e por que não dizer claramente com “teimosia portuguesa” essa missão. Não bastando seu trabalho de desbravador em Cambará, por diversas vezes, o Padre João fora escolhido como Vigário Capitular quando o Bispo titular era transferido. Imaginemos o peso dessa responsabilidade e as obras empreendidas com sacrifício e amor e sobretudo com humildade, numa época de                      comunicação quase anti diluviana...sem estradas, sem eletricidade, sem e sem e sem das facilidades tecnologicas de hoje!

  Convido o leitor a dar tratos na sua imaginação para poder apreciar o que hoje temos! Um exemplo apenas, quando chovia torrencialmente, de Cambarà a Ourinhos se caminhava horas e horas e às vezes    mais de um dia, com carros e carroças encalhadas pelas estradas mal aplainadas... Difi cilmente podemos imaginar para poder agradecer a Deus, os “bandeirantes” de nossas Familias e também ao chefe da “bandeira - Padre Belchior! Devo estender ainda um pouco um pormenor dessa narração sobre um assunto que envolve as familias migradas a Cambarà com filhos e filhas em idade escolar e a luta  para ter uma escola... Padre João compreendeu quanto era necessário motivar a juventude, abrir novos horizontes, ouvir e sobretudo descobrir e encorajar os talentos e foi o que fez. Não posso omitir o que Padre João fez e lutou com confi ança, constância e fé. Ele acreditava no progresso dessa região e punha toda sua fé no auxílio da Virgem Maria.

  O tempo foi passando, novos progressos: água encanada nas casas, novas ruas eram traçadas, iluminação pública, construção da Santa Casa, campo de football, desmembramento da paróquia, ginásio como uma espécie de sucursal do ginásio de Ourinhos e outros tantos benefícios surgiam benefi ciando nosso povo.Nessas alturas, Padre João, gravemente enfermo, estava sob cuidados médicos na Santa    Casa. Um enfermeiro, se a memória não me falha, Armando Poças, com devoção e respeito levou Padre João à Capela do hospital e ali com tanta fé, prostrado e sem forças, Padre João implora à Nossa      Senhora das Graças a benção de um Colégio católico para formação e redenção das Famílias cambaraenses. No profundo de sua alma ele teve a plena certeza de que não morreria sem ver essa obra completada. Era o “Nunc dimitis” desse grande servo de Maria!...Este fato me foi narrado pessoalmente por S.Excelência Dom Geraldo de Proença Sigaud, nosso Bispo Diocesano. Agradeço a atenção dispensada e ... se Deus quiser até breve.

  Aos queridos e pacientes leitores de hoje rogo o favor da leitura de meu breve artigo “Recordando ...Monsenhor Belchior” publicado no jornal local a pedido de meus queridos ex-alunos casal Dr. Carlos Gnaspini / Maria Helena Pereira Lima, filhos devotos dessa amada terra cambaraense.

  Desse modo penso, dar continuidade a minha narração interrompida em Abril/2014 na primeira ediçao do Lumen.

  Monsenhor João Belchior em sua humildade guardou no profundo de sua alma o que prometera à Virgem Maria “que não morreria sem ver realizado seu aspirado desejo : um Colégio catolico sob a proteção de Nossa Senhora das Graças”.

O excelentíssimo Sr. Bispo Dom Geraldo Sigaud por diversas vezes, em conversação, repetiu o fato e Mons. Belchior cabisbaixo parecia em silenciosa oração, nada dizia mas também não contradizia.

O grande mistério de Maria, formar Jesus nas almas... Com certeza ele pensava na transformação não só do pequeno grupo da escola mas também na projeção do mesmo nas famílias e na sociedade. Toda sua argumentação residia na convicção de sua alma mariana de apóstolo,cheia de fé e de amor.

Os primeiros grupos de religiosas da Congregação do Sagrado Coração do Verbo Encarnado, das quais Ir.Maria Pierina Guido e Ir. Maria Francisca Coniglio ainda viventes, podem confirmar como “testes” esse místico fato por terem ouvido narrar por sua excelência, o Bispo.

E agora, então, como aconteceu? Monsenhor Belchior estava muito enfermo e para narrar em poucas e pálidas palavras, pediu ao Bispo, Dom Geraldo de Proença Sigaud, que se encontrava em Roma, em visita “ad limina”, o favor de procurar uma Congregaçao feminina para gerir o sonhado Colégio, pois ele havia procurado no Brasil dezenas ou centenas de Congregações, sem resultado... Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos e seguramente a Divina Providência iria manifestar-se de um modo surpreendente.

O Bispo Sigaud encontrava-se no Vaticano precisamente no departamento das Congregações Religiosas e conversava com o Reverendíssimo Padre Rutten, religioso de origem holandesa e que atendia espiritualmente muitas Congregaçoes femininas.

Clementina Tagliarene, superiora geral da Congregaçao das Irmãs do Sagrado Coraçao do Verbo Encarnado, entra para falar com Padre Rutten e é apresentada ao Bispo brasileiro que imediatamente, sem perda de tempo e de rodeios, apresenta a Madre o pedido de Mons. Belchior. Madre Clementina, grande e experiente religiosa, ouviu atentamente o Bispo e o convidou a visitar a Congregação, conhecer o Carisma, apresentar o projeto e a proposta ao Conselho geral da Congregação para um preliminar estudo. Ao retorno do Vaticano Madre Clementina conta sua belíssima impressão e com o entusiasmo que lhe era próprio, diz às Irmãs que o Bispo lhes faria uma visita e realmente todas ficaram surpresas quando no dia seguinte o Bispo bate à porta de Via Guattani,7 em Roma! Dom Geraldo Sigaud era também religioso da Congregaçao dos Padres do Verbo Divino e dizia brincando: somos “parentes” – Verbo Divino e Verbo Encarnado!

Como responder ao convite inesperado, num ambiente europeu de após guerra, demolido pelas bombas, um flagelo e em plena e difícil reconstrução? Nossos gloriosos“pracinhas” entre os quais muitos filhos desta terra como o Sr. Francisco Frâncica e o Neco Marques narravam a nós, estudantes da época, a luta, as dores, a privação, a piedade do povo e a crueldade das lutas, que em linhas pobres, nem se podem imaginar...ou descrever! Naquele ambiente, com nossa casa Generalícia, salva miraculosamente dos bombardeios, que resposta dar ao convite e insistência do jovem Bispo brasileiro?

Coragem e determinação e bençãos de Deus para um discernimento justo!! Oremos e invoquemos as luzes do alto e as bençãos de Madre Carmela Prestigiacomo, nossa Fundadora... Aguardemos, Senhor Bispo, Deus se manifestará positivamente; se for de Sua santa vontade, essa nova fundação em terras do Brasil irá se concretizar, assim Madre Tagliarene deve ter respondido de imediato...E daì?

Documento vem e vai e finalmente a resposta definitiva aceitando a oferta de Mons.Belchior. Grande alegria invade o coraçao de todos! A Congregação envia as 4 (quatro) pioneiras missionárias e uma explosão de entusiasmo percorre também no pequeno exército de Madre Carmela! Lá, da outra parte do mundo preparamse as Irmãs: Felice Barbara (superiora), Maria Stella Stabile, Maria Pierina Guido e Maria Guilhermina Zappia para a grande aventura numa travessia, na velha nave mercantil “Campana” que, se não me engano, estava fazendo sua última viagem... Na casa generalícia, em Roma, após a santa Missa e imposição do Crucifixo missionário, as quatro religiosas foram acompanhadas a Gênova por Madre Crocifissa Millo e despediram-se rumo ao Brasil numa viagem longa e cheia de perigos naquela época. Hoje você, querido leitor, acostumado aos super aviões, não pode avaliar a aventura daquelas pobres Irmãs rumo ao desconhecido...

As Irmãs aportam em Santos aos 11 de dezembro de 1951 e foram recebidas pelo Sr. Osvaldo Leal e gentilmente hospedadas em São Paulo por dona Isaura Leal em casa da Família do Sr. Manoel Maria Leal, o grande amigo e compatriota de Mons. Belchior. Ao meio dia do dia 13 de Dezembro chegam exaustas, de trem, em Ourinhos e recebidas carinhosamente pelo senhor Otavio Rodrigues Ferreira. Finalmente entram na “terra da promissao” recebidas por um bom grupo de paroquianos e de crianças da cidade.

Entram na Matriz de Nossa Senhora das Graças ao som do Magnificat (em Latim) salmodiado por Monsenhor Belchior e Dom Geraldo Sigaud, bispo de Jacarezinho, acompanhados pelas Irmãs e pelo povo presente. Na Santa Casa, obsequiadas pelas Irmãs da Congregação de São Carlos Borromeu, nossas Irmãs tiveram sua primeira refeição em Cambará e a notícia de que ficariam hóspedes das Irmãs de S.Carlos até que pudessem ir para a casa própria!...Isso aconteceu porque o então pároco da época no último momento achou por bem que a comissão pro-Colégio se encarregasse de encontrar um outro local para moradia das Irmãs ao invés de, como ele próprio propusera, ceder temporariamente a casa paroquial!

Segundo seu costume, Monsenhor Belchior encontrou a solução do problema e como sempre as obras de Deus são acompanhadas pela Cruz, sinal de benção... As nossas 4 Irmãzinhas ficaram na residência das outras Irmãs enquanto que Padre João mandou às pressas fazer alguns urgentes reparos e uma caiaçao na casa em que habitava para em seguida receber as Irmãs ali e ele mesmo passou a morar num barracão de chão batido e sem o mínimo conforto na mesma chácara onde hoje está o Colégio ! A emoção me invade a alma só em pensar o quanto todos nós, de ontem e de hoje, devemos a esse santo sacerdote, humilde, sábio, silencioso e prudente! A este propósito recordo-me de uma sábia interpretaçao do Sr. Francisco Salles de Carvalho que na època era o tesoureiro da Comissão pro-Colégio: “ Nosso Senhor abençoará muito o martírio desse Padre com muitas bençãos às Famílias, tenho certeza!”

Os meses foram passando e as Irmãs ja conheciam melhor a língua portuguesa e se ambientavam com o povo; ja trabalhavam na catequese, haviam formado um belo coral na Igreja e acompanhavam o Padre a arrecadar fundos para a constuçao do Colégio... com a Campanha do Café! Aos 19 de Março de 1952 iniciaram as aulas da então “Escola Diocesana N. Sra. das Graças”. Como o prédio de madeira ainda não estava pronto, parte dos alunos recebiam lições numa sala da casa paroquial e outra parte, a maioria, onde hoje é a escola Maria Alice Bittencourt Forti, além do mais, as Irmãs e outras jovens professoras faziam o que elas chamavam “dopo scuola”. Isso quer dizer cuidado extra depois das aulas... Isso foi apenas no início e comportava grande sacrificio.

Em Junho de 1952, oficialmente, foi benta e inaugurada a nova escola com prédio próprio e adequado didaticamente. A escola foi inaugurada com uma peça teatral missionária participada por elementos jovens da sociedade e também com cantos, poesias e danças dos alunos do nosso “curso primário” (fundamental I). A presença de nosso Bispo Dom Geraldo e suas palavras foram de grande encorajamento e estímulo para a continuidade do nosso trabalho.

Avante, Cambará! Hoje e sempre avante!

Cambará progride e nosso Colégio também! Logo após a inauguração do Colégio em madeira, formou-se uma comissão para a construção do edifício em alvenaria. Antes disso tudo, a Congregação envia mais 4 membros para o Brasil: Ir. Maria Francisca Coniglio, Ir.Maria Domenica Iannazzo, Ir.Paolina Albanese e Ir.Justina Garofalo e acontece a passagem da propriedade da belíssima chácara, como propriedade da Congregação das Irmãs do Sagrado Coração do Verbo Encarnado! Essa chácara era, e é, de aproximadamente 1 alqueire paulista (25 mil metros quadrados) dentro do perímetro urbano!

Um paraíso de delícias: laranjeiras, pereiras, vinhas, clementinas, poncãs, jabuticabeiras e tantas outras frutas incluindo uma única jaqueira especial, única em toda a região e que atualmente conta mais de 100 anos e sempre, fértil!!! Símbolo da perenidade do nosso Colégio!

Pois bem, para essa chácara, o arquiteto Dr. Sigaud (irmão do Bispo de Jacarezinho), conhecendo o belo local, fez um projeto belíssimo e muito grande, digno talvez de um local de grandes posses e população.

A comissão do Colégio fez oposição, pois o plano estava acima das possibilidades e necessidades. Novas reuniões da Comissão das quais como sempre, ativamente, participava o Sr. Caetano Vezzozzo que sugeriu deixar o projeto aos cuidados do fi lho, Dr.Alceu, jovem engenheiro, que retornava dos Estados Unidos de uma especialização.

Bondosamente, Dr. Alceu Vezzozzo traçou magnifi camente o projeto que, sob orientação dele, começou a ser construído o prédio tendo como mestre de obras o Sr. Nelo Lucas. Contar de novo é fazer empoçar de lágrimas esse papel. Vejo passar pela memória tanto sofrimento e tanta magnanimidade!

Recordo-me que Cambará sempre, infelizmente, era dividida politicamente, porém, para trabalhar pelo Colégio Nossa Senhora das Graças, uniam-se todos como num milagre, era a obra abençoada por Maria – Madre da unidade!

A bela chácara deveria ser terraplanada. Onde hoje, bem ali naquele lugar onde está, fronteira à escola, a belíssima imagem de Nossa Senhora das Graças, existia uma frondosa jabuticabeira e ainda agora me recordo da expressão comovida e delicada do Dr. Benedito Rodrigues Ferreira que comandava o serviço, ao rolar pelos ares aquela preciosa árvore!.

Idas e vindas a Curitiba à procura de auxílio para a construção, campanhas do café e tantas outras. Quanta sola gasta, quanta humilhação, quanto sacrifício que só Nosso Senhor conhece. Pouco a pouco a construção começava a dar sinal de vida e aparência. Começavam a cavar para os alicerces. Campanha da pedra britada, campanha da areia, haja pedra e areia, e depois campanha dos tijolos, campanha para compra do ferro (haja ferro!). Imaginem só e mentalmente vejam pessoas correndo atrás de tudo isso e alguma coisa além disso. Não obstante tudo isso, iniciou-se a campanha do “metro quadrado” que permitia, graças ao bom sucesso, ir adiante com o pagamento em dia aos que trabalhavam na obra.

A construção do novo prédio começara “depois das chuvas”, como diz a poesia: “em março depois das chuvas…” mas, no nosso caso, as chuvas continuaram por mais tempo e as valetas abertas com sacrífi cio, tiveram que ser reabertas, em março... A paciência é a virtude dos fortes e então fomos avante e iremos, sempre, avante!

A vida continua, e com ela, nosso Colégio vai pouco a pouco avante. Estamos pelos anos 1950 quando a nova superiora das Irmãs, Ir. Maria Francisca Coniglio, pensou em estabelecer o curso ginasial para continuidade do estudo dos alunos. Foi uma tarefa muito árdua com despesas não previstas, com vai e vem à capital federal e fi nalmente esforços coroados de bom êxito... Onde encontrar professores para as diversas disciplinas e dar devido prosseguimento à lei então vigente?

Procurem imaginar...

A providência sempre vem ao encontro de quem age com fé. Naquela época, nossas Irmãs prestavam regular serviço pastoral também à vizinha cidade de Andirá. Ali conheceram Dr. Michael Kairala e o professor Boanerges Bacan que bondosamente se prontifi caram a auxiliar o ginásio nascente com as aulas de Matemática e Português e, assim, com estes professores, iniciou-se o “ginásio”, inicialmente já com as quatro séries. Recordo-me bem das múltiplas visitas do inspetor Dr. Mazziotti cuja orientação sábia e serena foi de grande encorajamento para a continuidade até hoje. As festas do aniversário da cidade e de outros eventos foram abrilhantadas com banda musical e uniformes belíssimos das nossas ginasianas.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus constitui o centro da vida espiritual da juventude e que ainda alimenta e corre nas veias de nosso povo. A celebração das primeiras “sextas-feiras” do mês estava a exigir um espaço próprio para oração e conservação da Palavra nos corações . Muito mais tarde foi construída a monumental capela, hoje anexa ao Colégio, e espera-se que continue a ser o lugar de contemplação, amor e devoção de nossos alunos, ex-alunos e familiares.

Quando ocorreu a primeira formatura do “Ginásio Nossa Senhora das Graças”? Foi em dezembro de 1957. Quantos alunos? Apenas seis : Maria Aparecida Passalacqua, Maria Ada Grandi, Wilma Matias, Guaraciaba Bretas, Isis Sorace e Dirce de Freitas. A elas os nossos parabéns e um convite especial para visitar sua em sua escola e admirarem o monumental prédio, a magnífi ca Capela, as obras de arte das gerações passadas e presentes e gozar de um respiro de paz e amor junto a o espaço verde que o coração das Irmãs preparou com carinho. Parabens!